Francisco Genu: Tem ditado para tudo

Rio – Explicar o problema salarial dos servidores do Estado do Rio é simples. O governo deveria pagar 100 reais de salários, mas, quebrado como está, só dispõe de, digamos, 50. Não entrarei no mérito se esse déficit é fato ou não.

O que aqui me interessa é tão-somente analisar os critérios utilizados para pagar os funcionários em meio à crise. Qualquer criança que já tenha repartido balas com amiguinhos orientaria o governo assim: “Se só há metade do dinheiro necessário, então pague metade do salário de cada um.” E seu senso de justiça a forçará a acrescentar: “E nada de privilegiar o Joãozinho, nada de pagar a um e não pagar a outro. O que vale para um tem de valer para todo mundo.”

No caso de essa criança valorizar a solidariedade, pode ser até que ela proponha: “Ou então pague mais a quem ganha menos.” Todavia, ainda assim ela enfatizará: “Nada de privilégios. Tem de pagar a todos. Se vale para um, tem de valer para outro”. Simples, não? Intuitivo até.

Pena que isso seja tudo o que o governo não faz. No melhor estilo do PMDB, constrói acordinhos aqui, acordinhos ali, capitula aos berros do primeiro poderoso que aparece, beneficia A em detrimento de B. A consequência é previsível: uma balbúrdia, um salve-se quem puder.

Para o Judiciário e o Legislativo, não existe crise nem falta de dinheiro, os salários estão sempre em dia. Não deveria ser assim. Afinal, o dinheiro vem de um só lugar, o imposto que você paga. Meu pai diria: “Farinha pouca, meu pirão primeiro.”

No âmbito do Executivo, aí “a porca torce o rabo” — e mais uma vez me lembro do meu pai. Pode ser que este mês a polícia receba, mas os médicos não. No mês que vem… bem, no mês que vem, ninguém sabe. Numa mesma categoria, o funcionário em atividade ganha algo, o aposentado nada. Uns têm até o 13º já pago, enquanto outros sequer viram a cor do salário de novembro, e o 13º está indefinido. Uma confusão.

Disso tudo, aflora o pior do ser humano. Todos brigam com todos. Por todos os lados, presenciam-se egoísmo, insensibilidade, ódio, maledicência. Novamente ouço meu pai: “Em casa que falta feijão, todo mundo briga, e ninguém tem razão”.

Que o governo não tente justificar o injustificável. A Constituição obriga? Ora, que ao menos se tente mudá-la. Tal categoria tem fundo específico? Acabe-se com o fundo. Para pagamento de salário, é inaceitável que haja categoria mais importante que outra.

Francisco Genu é auditor fiscal da Receita Estadual

FONTE: O DIA online